Município de Palmela Junta de Freguesia de Palmela
Vila de Palmela
Texto e notas de rodapé por António Lopes *
ORIGEM e CONQUISTA - Palmela terá sido fundada pelos celtas 310 anos antes de Cristo embora se ignore o nome por que era então conhecida. Aulio Cornelio Palma, pretor romano da Lusitânia, reedificou-a no ano 106 da nossa era dando-lhe o nome da Palma Pequena para a distinguir de uma outra Palma que já fundara na Andaluzia. Mas em 715 foi conquistada pelos árabes que dominavam, nessa época, toda a península ibérica. Datará do domínio árabe a construção do castelo. Palmela estava numa notável posição estratégica até porque o rio Sado estender-se-ia então até à base da encosta do castelo. No entanto, até D. Afonso Henriques, a história de Palmela é nebulosa e poucas certezas se podem adiantar. Em 1147, após a conquista de Lisboa, intentou D. Afonso a conquista de Palmela no que foi bem sucedido mas, pouco depois, retomavam os sarracenos o castelo. Só em 1165 ou 1166, Palmela foi definitivamente conquistada por D. Afonso. No dia 23 de Junho, à frente de 60 lanceiros foi o rei fazer um reconhecimento ao castelo. Afortunadamente, encontrou o rei mouro de Badajoz nos campos de Sesimbra para onde se dirigia. De imediato o atacou, saindo vencedor da peleja. No dia seguinte, sem poder ser socorrida, rendeu-se a guarnição de Palmela. Para que o castelo não voltasse a cair em poder dos mouros, D. Afonso Henriques mandou-o reconstruir e ampliar e doou a povoação aos cavaleiros de Santiago para que eles a povoassem e defendessem. Em 1186 D. Sancho I confirmou a doação de seu pai. Em 1191, o feroz miramolim (1) de Marrocos, Iacub-el Mansur, invadiu o Algarve e não encontrando resistência, marchou sobre o Alentejo, saqueando tudo à sua passagem. Chegou a Palmela que foi igualmente saqueada e arrasada. A povoação esteve praticamente abandonada até 1205 quando D. Sancho I reedificou todas as obras de defesa e guarneceu o castelo com numerosos e bravos combatentes. Palmela ficou então definitivamente em poder dos portugueses.
FORAES - Em Março de 1170, em Coimbra, D. Afonso Henriques concede foral aos moiros forros de Palmela, ou seja, aos mouros que se haviam sujeitado ao domínio cristão.
Em 1185, o grão mestre da ordem de Santiago deu foral a toda a população cristã. Os foraes foram confirmados por D. Afonso II, em Santarém, em 1217 e 1218.
D. Diniz elevou Palmela à categoria de vila em 1323 concedendo-lhe novo foral.
Novo foral foi também concedido por D. Manuel em 1 de Junho de 1512.
CONVENTO – No reinado de D. Diniz, os cavaleiros da ordem de Santiago em Portugal ficaram isentos da jurisdição e domínio do grão-mestre de Castela por um breve (2) que o monarca português obteve do papa Nicolau IV. Mais tarde, D. João I fundou o convento dentro do castelo. Iniciadas as obras em 1423 prolongar-se-iam por 59 longos anos. Nesse período, a 5 de Maio de 1443, determinou el-rei que a cabeça da ordem de Santiago se estabelecesse em Palmela. Foi primeiro mestre da ordem em Palmela o infante D. João, filho de D.João I . Curiosamente, foi também um infante D. João - filho de D. Afonso V e 4º mestre da ordem - quem em muito contribuiu para o fim das obras do convento e da igreja em 1482. Em 1608 o prior-mor, D. Jorge de Melo, procedeu a grandes obras de beneficiação nos edifícios.
BRASÃO – O brasão da vila de Palmela que se encontra na Torre do Tombo (3) tem um escudo púrpura. Mão de homem, de prata, sustenta uma palmeira no meio de duas torres. Sobre a palmeira está a cruz de Santiago no meio de duas vieiras (4) de prata, em campo de ouro. Actualmente, o brasão tem um braço direito de homem sustentando uma palma, entre duas torres e, de cada lado, sobre elas, a cruz da ordem de Santiago. Sobre a palma estão as cinco quinas da bandeira nacional.
DUQUES DE PALMELA – D. Pedro de Sousa Holstein foi o primeiro portador deste título. Sendo seu pai diplomata, nasceu em Turim em 1781. Veio para Portugal em 1795 onde prosseguiu os estudos e ingressou na carreira militar. Em 1802, com 21 anos, iniciou funções diplomáticas. Apesar de muito jovem, grangeou rapidamente o respeito dos seus pares. Em 1833 foi nomeado duque de Palmela. Presidiu ao conselho de regência que governou o país durante a menoridade de D. Maria II, foi presidente da Câmara dos Pares e, por duas vezes, chefe do mistério. Faleceu em Lisboa em 1850.
D. Domingos de Sousa Holstein (1818-1864) foi o segundo duque de Palmela. Exerceu também funções diplomáticas.
António de Sampaio e Pina de Brederode foi o terceiro duque. Usufruiu o título por casamento com a herdeira que o recebeu por morte de seu pai, a duquesa D. Maria Luisa (1841-1909). Foi assinalável a sua acção filantrópica e distinguiu-se também pelos dotes artísticos, sobretudo na escultura, tendo obras suas expostas no Salão de Paris. O marido foi oficial da marinha.
Luis Coutinho Dias da Câmara foi o quarto duque. Usufruiu o título por casamento com a herdeira, a duquesa D. Helena Maria (1864-1941). O marido foi diplomata e titular de cargos nas cortes de D. Carlos I e D. Manuel II.
D. Domingos de Sousa Holstein Beck (1897- ) foi o quinto duque. Seguiu a carreira diplomática, esteve ligado a actividades bancárias e distinguiu-se como coleccionador de arte.
CURIOSIDADES HISTÓRICAS – A vila de Palmela foi cabeça de um dos mais antigos concelhos do país. Foi suprimido, juntamente com outros concelhos, por decreto régio de D. Fernando, de 24 de Outubro de 1855.
A 13 de Fevereiro de 1876 inaugurou-se na vila a iluminação a gás. Apesar da noite estar chuvosa, a inauguração foi abrilhantada por duas filarmónicas que, além de percorrerem as ruas da vila, animaram de seguida um baile popular na sua sede.
Encontrando-se o pelourinho de Palmela muito degradado nos anos de novecentos, entendeu o Sr. Manuel Joaquim da Costa promover a sua recuperação. A 18 de Fevereiro de 1907, à noite, realizou-se a inauguração do pelourinho restaurado. Houve concurso das filarmónicas da terra e um coro de 30 crianças abrilhantou a festa cantando um hino composto pelo Sr. Manuel Joaquim da Costa.
A igreja de Stª. Maria, mais conhecido por igreja do Castelo por nele se situar, possui dois sinos grandes, o de Santiago e o da Srª. da Anunciada. Em determinada época intentou-se vender este último tendo o negócio chegado a firmar-se. Porém foi de tal modo violenta a oposição do povo de Palmela que o sino permaneceu onde estava.
(1) - califa ou chefe dos crentes entre os muçulmanos.
(2) - carta do Papa sem as extensas cláusulas da bula. Estas cartas papais continham declarações ou deliberações de carácter específico.
(3) - arquivo nacional situado em Lisboa, junto à chamada cidade universitária (por naquela zona estarem situadas várias faculdades). Na Torre do Tombo estão arquivados todos os documentos originais referentes à história do país.
(4) - conchas
* baseado em
· vol. V de "PORTUGAL, Diccionário Histórico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heraldico, Numismático e Artístico... ...redigido por Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues" . Edição João Romano Torres & C.ª - Editores, Lisboa, 1911
· vol. 2 do Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, edição das Selecções do Reader’s Digest, SA, 1990, ã 1985, Publicações Alfa, SA